Depois de uma jornada de quase três horas entre Maratona e
Atenas, na qual desbancou surpreendentemente os atletas favoritos,
o grego Spiridon Louis, camponês da cidade de Amaroussion, adentrou
o estádio Panathinaiko para completar o percurso de mais de 40
quilômetros na mais esperada prova dos novos Jogos Olímpicos de
1896. Quase 70.000 compatriotas alcançavam o êxtase ao presenciar o
triunfo de Louis na recém-criada maratona, tradução esportiva da
milenar façanha do soldado Feidípedes, que em 490 a.C. correu o
mesmo caminho para anunciar, para igual júbilo de seus patrícios, a
vitória ateniense contra os persas na batalha de Maratona. A
semelhança entre o destino dos dois heróis gregos, porém, cessava
nesse ponto: enquanto a tragédia granjeou Feidípedes, que caiu
morto após pronunciar uma única e hoje célebre frase –
"regozijem-se, atenienses, vencemos!" –, a glória enamorou-se
de Spiridon Louis, alçado imediatamente ao panteão dos mais
valentes helenos.
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| Proeza heróica: percurso em três horas |
Logo após completar a prova, o atleta de 23 anos foi carregado
nos ombros pelos dois príncipes herdeiros da Grécia, Constantino e
Jorge – honra inédita a um plebeu –, que o levaram ao
encontro do rei Jorge, em seu trono de mármore nas tribunas. Às
congratulações do monarca somaram-se caixas de charutos, correntes,
um relógio de ouro cravejado de pérolas e um vale para 365
refeições. Entusiasmado, um cidadão teve de ser dissuadido de
assinar um cheque de dez mil francos endossado ao vitorioso –
o que feriria gravemente o caráter amador dos Jogos. De qualquer
forma, Louis acabaria por não aceitar nenhuma das ofertas dos
aficionados, à exceção da medalha de prata concedida pelos
organizadores e de dois presentes – uma taça, também de
prata, de 25 centímetros, oferecida pelo filólogo francês Michel
Bréal, idealizador da corrida, e um vaso adornado com a imagem de
um corredor, presenteado pelo colecionador de antiguidades Ioannis
Lambros.
Alto, magro e humilde, o herói da maratona olímpica e novo ídolo
do povo grego preparou-se para a prova labutando, correndo ao lado
dos cavalos que o acompanham em sua lida agrícola. Sua resistência
e sua velocidade em longos trajetos foram notadas durante o serviço
militar na infantaria, mas o grego jamais disputara qualquer tipo
de competição esportiva. Mesmo assim, um de seus superiores no
exército, o coronel Papadiamantopoulos, integrante do comitê
organizador dos Jogos, persuadiu-o a inscrever-se na maratona. Na
véspera da grande corrida, enquanto toda a Grécia sonhava com um de
seus corredores recebendo a medalha, unindo o passado glorioso da
Antiguidade ao dinamismo dos Jogos modernos, o camponês Louis
rezava à luz de velas em um singelo celeiro, depois de ter
comungado e confessado seus pecados. Suas preces – assim como
as de toda a nação helênica – logo seriam atendidas.
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| Os concorrentes ficaram pelo caminho: um
francês se espatifou no chão |
Arrancada final – Precisamente às 14
horas do último dia 10, quinto dia de disputas, 17 competidores
– treze gregos, um húngaro, um australiano, um francês e um
americano – se fizeram presentes à ponte de Maratona para a
largada da corrida. A organização espalhou soldados ao longo dos 40
quilômetros do trajeto; charretes com médicos, cronômetros e
suprimentos acompanhariam os corredores durante todo o percurso. Um
disparo da pistola do coronel Papadiamantopoulos deu o início à
contenda, dominada inicialmente pelos estrangeiros. Até a metade da
corrida, na cidade de Pikermi, o ponteiro era o francês Lermusiaux,
à frente do americano Flack, do australiano Blake e do húngaro
Kelner. Nesse ponto, os dois primeiros gregos na classificação,
Lavrentis (campeão das preliminares olímpicas) e Kafetzis,
abandonaram a prova, abrindo espaço para o vencedor dos jogos
pan-helênicos, Kharilaos Vasilakos.
Em sua passagem por Pikermi, ainda na sexta posição, Spiridon
Louis, que corria com uma túnica branca e sapatos emprestados de um
vizinho, entornou um copo de vinho oferecido por um espectador e
perguntou aos moradores quem estava à sua frente. Ao ser informado
da distância que o separava dos líderes, não se abateu. "Não será
problema. Eu os alcançarei, os ultrapassarei e ganharei deles." O
trecho em aclive que se seguiu ajudou Louis a concretizar sua
previsão. Blake foi o primeiro a abandonar. Depois foi a vez de
Lermusiaux, que pagou o preço por seu início exageradamente lépido.
No quilômetro 32, o francês, já tendo perdido a posição para Flack,
espatifou-se no chão e teve de ser recolhido por uma das carruagens
de apoio. Enquanto isso, Louis, que já ultrapassara Vasilakos e
Kelner e era seguido por uma multidão de entusiastas, começava a
encostar no líder. No quilômetro 34, o grego deu o bote e
ultrapassou o americano, para frenesi dos espectadores.
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| Louros da glória: cerimônia de premiação |
Por cerca de três quilômetros, Louis e Flack se mantiveram
separados por uma distância de meros 20 passos. No quilômetro 37,
na saída da cidade de Ambelokipi, a namorada do grego, Eleni, o
esperava com alguns pedaços de laranja. De energia renovada, o
líder apertou o passo e se desgarrou do adversário, que sucumbiu ao
esforço e também precisou ser socorrido pelo carro médico. Um tiro
anunciou a entrada de Louis no perímetro de Atenas, próximo à
escola Rizarios; no estádio, porém, chegava a informação equivocada
de que era Flack o primeiro. O desânimo já tomava conta dos gregos
quando um diligente mensageiro, galopando seu corcel, entrou no
estádio. Seguindo direto para a tribuna real, informou que a
vitória seria do grego Spiridon Louis. A notícia logo se espalhou.
Quando Louis entrou no estádio e completou a prova, com o tempo de
2 horas, 58 minutos e 50 segundos, a apoteose já estava preparada.
A chegada de Vasilakos, sete minutos depois, e de Belokas, que
vinha em seguida, deu aos helenos o segundo e terceiro lugares,
para completar a festa. (Belokas, contudo, foi desclassificado
pouco mais tarde, ao se descobrir que percorreu parte do trajeto em
uma carruagem. O húngaro Kelner herdou assim o terceiro posto.)
Desejos realizados – O triunfo de Louis,
com as intermináveis celebrações do povo grego, eclipsou por
completo todas as outras modalidades. No dia 15 de abril, na
cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos, o vencedor da
maratona foi a grande atração, comandando o desfile dos atletas
pelo estádio Panathinaiko, como era o costume na Antiguidade. O
público homenageou Louis com uma chuva de flores; em retribuição, o
atleta acenava e agitava sem parar sua pequena bandeira da Grécia.
Além da taça e da medalha, o campeão tomaria para si um terceiro
presente – este não retornável, por vir diretamente do rei
Jorge, que prometeu providenciar ao corredor qualquer coisa que
este desejasse. A resposta foi imediata: um cavalo e uma charrete
para facilitar o transporte de água em sua labuta. Humilde, como um
verdadeiro herói.
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